quarta-feira, 20 de abril de 2011

CIDADANIA EM RISCO - A violência que explode na escola

O recente massacre de crianças em uma escola carioca escancarou uma realidade que preocupa: as instituições de ensino não são redutos de tranquilidade, onde as crianças estão protegidas dos conflitos sociais, do preconceito, da intolerância e da falta de noções de convivência. A ausência de valores tão básicos aumenta os casos de violência e anunciam os riscos de novas tragédias. 

Uma professora da rede pública ouvida pela FOLHA diz que a falta de investimentos nas escolas faz com que os problemas sociais explodam no interior dos colégios. Já para a psicóloga da Universidade Estadual de Londrina (UEL), Solange Mezzaroba, doutora em educação, as instituições não estão preparadas para enfrentar os problemas decorrentes do aumento de alunos e da diversidade de segmentos. Entre estes problemas podem estar a intolerância e o preconceito, que resultam no individualismo. Uma reprodução do mundo competitivo que reina além dos muros escolares. 

Para a ouvidoria do Núcleo Regional de Educação (NRE) de Londrina, responsável por 19 municípios da região, os problemas são agravados pela mudança de comportamento das famílias, que são cada vez mais permissivas com seus filhos e questionadoras em relação às tentativas de impor limites por parte das instituições de ensino.''Falta disciplina nas famílias, e isto se reflete no dia a dia das escolas. Na grande maioria dos casos, a criança que causa problemas na escola tem problemas dentro de casa'', observa a ouvidora Vanessa Abrão. Ela lembra também que os alunos, de maneira geral, gostam da escola, mas as aulas não são atrativas. 

E repensar a metodologia não é o único desafio para professores, de acordo com a ouvidora. Estes profissionais não estariam sendo devidamente preparados para os conflitos, em sua formação. ''A Secretaria de Estado da Educação (Seed) iniciou trabalho neste sentido, com a edição dos Cadernos Temáticos - Desafios Educacionais Contemporâneos. Além disso, em 2010 foi iniciado o projeto NRE itinerante, com capacitações focadas na violência, e foi criado na Seed um Grupo de Enfrentamento à Violência, diferenciando casos de indisciplina de atos infracionais.'' 

A ouvidoria, porém, não tem estatísticas sobre estes casos no ambiente escolar. Já dados da Coordenadoria de Apoio Psicossocial Infantil (Caps-I) de Londrina apontam que em 2010 foram feitos 15,8 mil atendimentos a crianças com transtornos de sono, alimentares, psiquiátricos graves, autismo e transtornos de comportamento. A grande maioria está matriculada no ensino regular. 

Para a coordenadora administrativa do Caps-I, Clarissa Pires Rausch, muitas escolas têm dificuldade em identificar transtornos de comportamento, que exigem atendimento especializado à criança, feito por toda uma rede de serviços. ''E isto, em Londrina, ainda é falho'', ressalta. O mais preocupante, segundo Clarissa, é que o transtorno de comportamento hoje é o transtorno de conduta amanhã.

Silvana Leão - Folha de Londrina

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